quinta-feira, 22 de março de 2018

Górgona




Górgona

 



Recusa

A vida reclusa

Obtusa

E acusa

A  escolha confusa

Dispersa e difusa

De primeiro os catetos

                             (à hipotenusa)

Enquanto usa

Alegria profusa

Quase escusa

Como hipnótica musa

Cabelo de medusa


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Poema-cobra


Poema-Cobra


Não há mistério em

todo o silêncio

Não há silencio em

toda dor

Não há dor em

toda lágrima

Não há lagrima em

todo temor

 

Não há raiva em

toda partida

Não há partida em

todo adeus

Não há Deus em

toda graça

Não há graxa em

todo pneu

Não há fome em

toda boca

Não há boca em

todo seio

Não há seio em

toda censura

Não há censura em

todo meio

 

Não há ruga em

toda cara

Não há cara em

todo herói

Não há herói em

toda história

Não há história em

tudo que constrói

 

Não há arma em

todo assalto

Não há assalto em

toda violência

Não há violência em

todo grito

Não há grito em

toda advertência

 

Não há seta em

toda estrada

Não há estrada em

todo caminho

Não há caminho em

toda jornada

Não há jornada

                                      predestinada no ninho

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Menestrel



Menestrel


Embriões de coisa alguma
Cobras aladas
Poetas urbanos
As vezes voando
As vezes se rastejando

Mascando sem fome
Estátuas argiliformes
Poetas guturais
As vezes um dia a menos
As vezes um dia a mais

Gambás vaporíferos
Finados frutíferos
Poetas solitários
As vezes em seus palanques
As vezes em seus armários

Vírus contagiosos
De amores litigiosos
Poetas destemidos
As vezes angelicais
As vezes uns pervertidos

Demônios santimoniais
Guardiões dos umbrais
Poetas inocentes
As vezes sobrevivendo
Mas sempre convalescentes

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Would



Would

Eu que já quis um dia ver deus
Saber a cor de seus olhos
E como cruza as pernas ao sentar

Eu que já quis um dia ser Manoel Bandeira
Ser modernista e tuberculoso
E fazer versos como quem morre

Eu que já quis um dia ser astro do rock
Drogado e deslumbrado
Ser o órfão do pudor e da cautela

Eu que já quis um dia ser alpinista
Inspirar em rarefeito
Expirar maciço o ar fundo

Eu que já quis um dia ser pássaro
Bater as asas ao barlavento
E pousar no galho mais fino

Eu que já quis um dia ser alquimista
E no meu cachimbo de ouro
Fumar a pedra filosofal

Eu que já quis um dia beijar Janis Joplin
Como quem lambe a tampa do iogurte
Como quem lambe sabão

Eu que já quis um dia ser boxeador
E entre a guarda e a esquiva
Ser derrubado com elegância

Eu que já quis um dia ser viajante do mundo
E levar comigo na mochila
Tudo aquilo que nunca tive

Eu que já quis um dia...
Logo eu
De um desgovernado pretender
Chego ao estorvo, ao apuro

De não saber mais o que querer 

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Legatus



Legatus 


Às vezes um pé na porta 
Noutras um pé no chão
Às vezes um tanto torta
Ainda que vara de condão 

Às vezes tudo indica 
Noutras nada parece 
Às vezes é tudo guerra
Noutras é tudo prece

Às vezes o sol na porta 
Noutras chuva torrencial 
Às vezes Inês é morta 
Noutras ela é imortal 

Às vezes viver é belo 
Noutras é pedra no rim 
Às vezes é esforço hercúleo 
Noutras é só atchim

Às vezes tenho certeza
Noutras tenho noção 
Às vezes família à mesa
Noutras café no chão 

Às vezes prédio de vidro
Noutras rústica palafita 
Às vezes tapete vermelho
Noutras nem se cogita

Às vezes mãos de cobrir os olhos 
Noutras mãos de tatear
Da era dos deuses um espólio 
Já nos é liberado sonhar

Sendo espólio ou mero regalo
Ainda que pobre e deficiente
Se o sonho é tudo que temos
Sonhar é mais que suficiente



quarta-feira, 12 de julho de 2017

O Pianista




O Pianista

Meu musicista pueril
Inocente como o engano
Alonga seus dedos compridos
Nesse momento mezzo piano

Regozija-se com seu momento
Concentra-se para seu solo
Pois quando a sinfônica destoa
Recolhimento é o protocolo

Assim como seu piano
A vida é um paralelo
Entre bemóis e sustenidos
Como corda tocada a martelo

Sua música não há de parar
Nem agora nem hora alguma
Seu espírito é arte e amor
Em meio a esse mundo de bruma

Não se deixe abater
Pelo desafino e pelo dissonante
Concentra-se em reagrupar
Sua família orquestra pulsante

De sua vida não sou maestro
Sou ouvinte e espectador
E te aplaudo no fim do ato
Como amigo e admirador 




Dedicado carinhosamente ao amigo Gian

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Blackbird II



Blackbird II


Meu pequeno melro selvagem 
Distância e o tempo existem
Não são açúcar nem cana
Mas amores puros resistem
Como fio de teia de aran
ha

Tua dor hora exposta
De feitio selvagem e nômade
Teus voos aqui eram aposta
Mas bateram a asa obstante

Vi teu amor mudar de lado
Sin perder la ternura jamás
Vi teu mundo virar quadro
Em minhas horas abismais

Vi teu ninho fazer terra
Numa terra de sangue e glória
Vi teu fruto cessar guerra
De tua alma migratória

Para o samba de domingo
Existência é coisa pouca
No farfalhar de tua asa
E noutra vida menos louca
Quando a dor ainda for pouca
Eu te espero em nossa casa

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Volontaire



                                                            Volontaire


Catimba do mundo 
Magia de Ebó
De trás para frente derrubo
Os muros de dominó 

Dribles secos no destino
Armas cegas de Ogum
No fim o começo se abre 
Partindo do lugar comum 

terça-feira, 21 de março de 2017

Pareidolia




Pareidolia 




De que substância é feito um sonho 
De um filho que sonha com o pai?
De que matéria é feito o sono 
De um pai que espera seu filho?
De que elemento é feito um filho 
Que espera do pai, seu sonho em forma de matéria?
Que matéria?
Que sonho?
Que pai?
Aquele que foi ou aquele que vai?
Aquele que pune ou que abstrai?

E qual o sabor de uma vida efetiva?
De quantos redemoinhos é feito um furacão?
Quais penas ainda vamos pagar 
E quais cálices vamos erguer 
Entre nossas próprias mãos?
Sonhos periféricos!
A vida é balela 
No final somos todos 
Átomos na tabela
Uma sopa de sustos 
Numa mesma tigela

Mas meu filho, meu duplicado
Não se assombre se um dia 
Emergir um mundo 
Estranho ou modificado 
Não estranhe as curvas 
Para o mesmo lado 
Não repreenda o looping
Do mundo quadrado 
Somos só fato 
A ser comprovado 
Somos só sonho 
A ser sonhado 
Somos a pústula do imaculado 
Somos a morte do que é sagrado 
E seremos sempre o mais belo canto 
Do pássaro iluminado

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Horas Abismais





 

Horas abismais 


As horas 
As horas abismais 
Onde o vácuo preenche 
O que deveria estar cheio 
De sangue e ar quente 
Aquele tempo 
Aquele tempo distante 
Onde a ideologia e as certezas 
Eram bússola 
Hoje tudo é cinza 
Cinza morno 
Cinza de cinzas 
Aquele tempo 
Aquele tempo de nunca mais 
Onde amor era obrigatório 
Onde justiça e caridade
Eram mais do que dogmas 
Tempo de certeza
Tempo de esperança 
Onde o melhor 
Estava sempre por vir 
Hoje sou um porco 
Um porco fascista 
Retrógrado, preconceituoso
Quadrado, covarde e vil 
O tempo apaga a brasa 
Do carvão que se afasta da chama 
Hoje sou estrada, não carro 
Sou bóia, não barco 
Sou ninho e não pássaro 
Onde está a beleza do mundo?
Onde está o mistério do planeta?

                                                            Perdeu-se

Em alguma escolha 
Em alguma omissão 
Em todas elas 
Devagar e absolutamente 
Num mundo sem piloto automático 
Sem papel principal 
Sem seu lugar no cosmos 
Minha mais nova versão
Minha última atualização 
É preto e branca 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Großvater







Großvater


 

De flores tão raras

De manhãs em furta cor

De sábados brejeiros

As lembranças de meu avô

 

Das estórias mal explicadas

Dos “causos” reais  non-sense

Do sorriso maledicente

Dos domingos de Fluminense

 

Dos cabelos bem penteados

Do semblante jovial e fresco

Das calças em cor cáqui

Do espírito burlesco

 

Dos cafés às quatro e meia

Dos cães que foram encantados

Das limonadas suíças

Do arroz colado nos lábios

 

Da comicidade do fim de tarde

Da bengala pendurada à janela

Do vizinho do pé chato

Do queijo com mortadela

 

Dos sonhos de jogo do bicho

Das caretas e do besteirol

Das linhas de todos os ônibus

Das mandingas de futebol

 

Do carinho do “ Fala malandro!”

Da pureza e da gentileza

E nos dias em que perde o Flamengo

Ainda espero o seu “Que beleza” 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Duo




Duo 

No escuro, se curve 
Ou corra
Sodoma ou Gomorra
A vida no asfalto

Na selva, se esconda
Ou se alegre
Tartaruga ou lebre
O silêncio do arauto

Na luz, se mostra
Ou se expia
Cadeia ou alforria
Do mínimo um falto

No agora, se mate
Ou acredite 
Hermes ou Afrodite 
De tudo um incauto