quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Horas Abismais





 

Horas abismais 


As horas 
As horas abismais 
Onde o vácuo preenche 
O que deveria estar cheio 
De sangue e ar quente 
Aquele tempo 
Aquele tempo distante 
Onde a ideologia e as certezas 
Eram bússola 
Hoje tudo é cinza 
Cinza morno 
Cinza de cinzas 
Aquele tempo 
Aquele tempo de nunca mais 
Onde amor era obrigatório 
Onde justiça e caridade
Eram mais do que dogmas 
Tempo de certeza
Tempo de esperança 
Onde o melhor 
Estava sempre por vir 
Hoje sou um porco 
Um porco fascista 
Retrógrado, preconceituoso
Quadrado, covarde e vil 
O tempo apaga a brasa 
Do carvão que se afasta da chama 
Hoje sou estrada, não carro 
Sou bóia, não barco 
Sou ninho e não pássaro 
Onde está a beleza do mundo?
Onde está o mistério do planeta?

                                                            Perdeu-se

Em alguma escolha 
Em alguma omissão 
Em todas elas 
Devagar e absolutamente 
Num mundo sem piloto automático 
Sem papel principal 
Sem seu lugar no cosmos 
Minha mais nova versão
Minha última atualização 
É preto e branca 

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